[#NaNoDicas] Entrevista com Aline Valek

A NaNoWriMo acabou. Tenha sido um mês de escrita intensa, de muita criatividade e pouca escrita, ou mesmo de pura procrastinação, espero que você tenha se divertido um pouco com o desafio – e que isso tenha ajudado você a entender mais sobre o seu processo de escrita. Para encerrar o ciclo de entrevistas da NaNoDicas, acompanhe esse papo com a autora Aline Valek, que publicou seu projeto de NaNo – As Águas Vivas Não Sabem de Si – pela Rocco.

Literatividade: Como surgiu a ideia da sua história: ela já existia antes da NaNoWriMo ou foi construída ao longo do evento?

Aline Valek: A ideia já existia, assim como alguns rascunhos com trechos e estudos de voz narrativa e de personagem. Mas ao longo do NanoWriMo a ideia foi se modificando e a história indo por outro caminho. Quando me dei conta, eu estava criando menos uma história de ficção científica investigativa, como era a ideia no princípio, e bem mais uma jornada psicológica, com o oceano e suas criaturas tendo um papel bem mais importante do que eu havia planejado no início.

L: Por que participar da NaNoWriMo? Ela traz algum tipo de vantagem?

AV: É uma ótima oportunidade de exercitar o compromisso com a escrita.

Escrever um pouco todo dia inevitavelmente vai te levar a algum lugar.

L: Fala um pouco sobre a sua rotina de escrita durante a NaNo.

AV: Acho que algo parecido com um programa dos Alcóolicos Anônimos: um dia de cada vez. Preciso bater a meta hoje, é isso que importa. Não dava muito tempo de planejar o futuro da história, se eu estava concentrada em escrever as melhores 1600 palavras diárias que eu conseguisse. O NaNoWriMo é uma aula de como viver o presente.

L: Quais dificuldades você enfrentou durante o evento?

AV: Principalmente a sensação de que estava tudo uma merda e que talvez fosse melhor eu desistir. Em certo momento eu não conseguia fazer os personagens conversarem, eu não fazia ideia do que aconteceria em seguida na história e me batia um desespero. Mas a própria dinâmica do evento te ajuda a seguir em frente: minha preocupação principal era bater a meta do dia, então eu dava um jeito de fazer isso, ainda que eu não gostasse do que tinha escrito.

L: Recebeu algum tipo de apoio? Se sim, de quem? Foi importante?

AV: O Marcos, meu companheiro, foi quem mais me ajudou. Como em tudo o que eu faço, ele me apoiou ouvindo minhas crises, minhas inseguranças com a história e as minhas constantes declarações de “é isso, acabou, não vou fazer mais, é hora de desistir!”, rs. Então a gente conversava e ele me fazia ver que não era bem o fim do mundo que pintei na minha cabeça, me ajudava com ideias e críticas que me faziam enxergar um caminho e voltar para a pista. Os leitores também apoiaram muito, com a torcida e com a compreensão da minha ausência durante o desafio. O processo todo foi algo bem bacana de compartilhar com as pessoas que acompanham meu trabalho.

L: E como foi o processo pós NaNo?

AV: Depois do NaNoWriMo eu me afastei da história. Eu não aguentava mais pensar naquilo todo dia!

L: Que tipos de cuidado você tomou para transformar o seu projeto da NaNoWriMo em um

livro pronto para publicação?

AV: Em primeiro lugar, mandei a história para alguns leitores beta. A ideia era colher a opinião deles para saber como melhorar a história. Eu já tinha uma boa ideia do que eu queria mudar, mas os comentários deles me ajudaram a ver outros detalhes. A editora já tinha se interessado pela história a partir do primeiro manuscrito, mas eu falei para eles não mexerem em nada ainda, porque eu ia reescrever tudo. Uns seis meses depois, entreguei a versão reescrita para a editora, que acabou ficando bem diferente do que eu escrevi no NaNoWriMo, mais madura. A editora fez pouquíssimas sugestões de mudanças e melhorias nessa versão, então esse meu processo de reescrita foi essencial pra transformar a história que eu tinha num livro.

L: Você acha que dá para publicar um projeto recém-concluído na NaNoWriMo? Por quê?

AV: Depende do objetivo do autor. Sempre dá pra publicar algo. Mas se a ideia é publicar como um livro, então não. O que se tem depois que se termina esse desafio é um primeiro manuscrito. Independente de ser feito num desafio como esse ou não, um primeiro manuscrito ainda não é um livro. É o começo de algo. Pense num software, por exemplo. Dificilmente ele sai direto da mesa do programador para o computador do usuário final.

O produto é testado exaustivamente e modificado várias vezes antes de sair sua versão para consumo. O primeiro manuscrito é um protótipo. Ele também precisa ser testado, revisado, reescrito e modificado várias vezes até virar algo com as pontas mais amarradas, que pode chegar para o leitor.

L: Sobre a publicação: fala um pouco sobre como foi o processo.

AV: Tive o privilégio de trabalhar com pessoas incríveis na Rocco, e todo esse trabalho foi feito por mulheres. Elas cuidaram da minha história com muito carinho e rolou uma sinergia muito grande. Quando a designer apresentou a ideia da capa, por exemplo, eu mal consegui acreditar, porque era bem próximo do que eu tinha imaginado, era como se ela tivesse lido meus pensamentos! Já o momento de divulgação e lançamento foi muito difícil, mesmo se tratando de um livro publicado por editora grande.

Há muitos obstáculos para fazer um livro recém-lançado chegar às pessoas. O livro estar nas livrarias não significa muita coisa… porque você já viu o TANTO de livros que chega numa livraria todo mês? Então, na verdade, quando o livro está pronto e vai para as livrarias, não é o final feliz, é só o início de mais uma etapa do trabalho.

L: Como você lidou com o retorno dos leitores? Acha que esse feedback te ajudou a melhorar como autora?

AV: Tem sido muito interessante, porque é a possibilidade de ler meu livro pelos olhos dos leitores. E as pessoas sempre tem interpretações incríveis e uma percepção muito sensível sobre os personagens e a história que escrevi. É lindo demais ver em quais pontos o livro dialoga individualmente com a experiência de cada leitor.

L: Que dicas você daria para os participantes da NaNoWriMo 2017?

AV: Vá escrever e pare de procurar dicas! Você tem uma meta para bater hoje, plmdds!

L: Agora aproveita e faz o seu jabá! 🙂

AV: ​Bem, pra me conhecer o melhor lugar para visitar é meu site, alinevalek.com.br, onde dá pra ver tudo sobre o meu trabalho. Regularmente eu envio uma newsletter com novidades sobre o que estou escrevendo e outras reflexões sobre escrita e literatura; dá para assinar de graça em tinyletter.com/alinevalek. Também produzo uma zine mensal que meus apoiadores recebem impressa, em casa, com textos inéditos e ilustrações​, tudo feito por mim como um pão caseiro; pode ser assinado em apoia.se/bobagensimperdiveis. Por fim, o livro de que falamos nessa conversa e que foi resultado do meu NaNoWriMo é o As águas-vivas não sabem de si, que pode ser encontrado nas melhores livrarias.

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