[#NaNoDicas] Entrevista com Diego Guerra

Autor de O Teatro da Ira – publicado pela Editora Draco –  Diego Guerra aproveitou uma NaNoWriMo para transformar a ideia de um conto engavetado em um desafio. Foi assim que nasceu O Gigante da Guerra. Acompanhe a nossa entrevista e saiba mais.

Literatividade: Como surgiu a ideia da sua história: ela já existia antes da NaNoWriMo ou foi construída ao longo do evento?

Diego Guerra: O Gigante da Guerra nasceu como um conto. A ideia apareceu enquanto eu estava planejando me inscrever em uma antologia, mas logo ficou bem claro que eu não conseguiria contar a história que eu queria dentro do limite da antologia, então deixei a ideia de lado. Quando resolvi que participaria do NaNoWriMo, me veio a lembrança do conto e eu o tirei da gaveta. A ideia central está ali, mas muita coisa (mesmo) mudou durante o evento.

L: Por que participar da NaNoWriMo? Ela traz algum tipo de vantagem?

DG: Acho que participar do NaNoWriMo ajuda a você pensar em seu processo de trabalho. Você descobre os horários em que você funciona melhor, quantas palavras consegue escrever em um dia bom, seus caminhos para desenvolver empasses de roteiro. O tempo te obriga a organizar seus processos físicos e mentais, para a coisa acontecer.

L: Fala um pouco sobre a sua rotina de escrita durante a NaNo.

DG: Eu escrevia uma média de 1800 palavras por dia dividida em 3 blocos. 900 pela manhã enquanto tomava café, 200 no horário do almoço e seiscentas antes de dormir. A contagem de palavras seguia mais ou menos isso. Me dedicava também uns 20 minutos a leitura do que tinha feito anteriormente, com menores modificações para a coisa andar. Tive sorte, tive uns dias de férias durante o NaNo o que ajudou a dar um gás na produção. No fim, acabei em 25 dias.

L: Quais as principais dificuldades você enfrentou durante o evento?

DG: Tive algumas. Teve uma cena em particular que me devastou profundamente. Foi algo de tamanha crueldade e tristeza que eu fiquei deprimido por alguns dias.

Quando me recuperei a história já era outra e o personagem começou a tomar decisões que eu não tinha planejado. Pânico! Meu planejamento tinha todo ido para o buraco e eu tive que parar uns dias para organizar os rumos da história.

O Gigante da Guerra não foi uma história fácil. Era sombria e pessimista e achei que eu não teria estômago para chegar ao final, por fim terminei apenas para me livrar dela, pois não queria mais pensar na vida triste daqueles personagens.

L: Recebeu algum tipo de apoio? Se sim, de quem? Foi importante?

DG: Sim, tive grande apoio dos meus amigos, que não entendiam muito bem porquê eu estava fazendo aquilo comigo mesmo, mas ficaram do meu lado. Os escritores que me conheciam também me ajudaram e a comunidade do NaNo no facebook tinha sempre uma palavrinha para a gente seguir em frente. Tudo conspirou para o livro acontecer, mas o maior sacrifício é do participante mesmo. Durante um mês ele vai mudar a sua rotina e isso influencia inclusive nas suas relações pessoais. Ou talvez não, talvez eu tenha levado tudo muito a sério, não sei.

L: E como foi o processo pós NaNo?

DG: Ao fim do NaNo eu não tinha estômago para olhar para aquele livro. O processo todo tinha sido muito desgastante, não apenas pelo prazo, mas pela temática que acabou coincidindo com um momento difícil da minha vida. Tudo o que eu queria era esquecer aquela história por um tempo e seguir a minha vida, mas a decisão parecia ter escapado das minhas mãos. Uma editora que estava acabando de iniciar as atividades entrou em contato para saber se eu tinha alguma coisa para publicar. O convite foi meio inusitado e tudo o que eu tinha pronto era o Gigante da Guerra, ainda quente do NaNoWriMo, sem nenhuma revisão. Ela aceitou o original do jeito que esta e eu pensei que não teria que lidar com aquilo por algumas semanas. Para a minha surpresa no dia seguinte minha caixa de mensagem estava cheia de perguntas sobre a história. A editora leu o livro de um dia para o outro e queria publicá-lo.

L: Que tipos de cuidado você tomou para transformar o seu projeto da NaNoWriMo em um livro pronto para publicação?

DG: Revisão. Outra revisão. Mais uma revisão e edição. Não tem outro caminho.

Escrever é reescrever e eu passei alguns meses enfiado nesse processo.

Tive sorte por ter feito essa parte do processo ao lado do pessoal da Editora Crown que acreditava bastante na história e queria que ela saísse da melhor forma possível.

L: Você acha que dá para publicar um projeto recém-concluído na NaNoWriMo? Por quê?

DG: Bom, publicar é sempre possível, mas nem sempre é uma boa idéia. No caso do NaNoWriMo, o prazo vai te empurrar ao erro e não estou nem só falando em erros de sintaxe, mas falhas de roteiro e continuidade.

Ler novamente com olhos descansados é essencial e se um profissional puder fazê-lo por você para apontar as coisas que você não viu, melhor ainda. Não vou dizer que é impossível publicar um livro recém-concluído, mas eu diria que é um risco desnecessário.

L: Sobre a publicação: fala um pouco sobre a sua decisão por publicar e as etapas do processo.

DG: Essa decisão realmente escapou das minhas mãos, eu nunca soube muito bem o que eu queria fazer com a história depois que eu terminei, mas a editora conseguiu me convencer a publicá-la. Era uma publicação modesta – falávamos na época em 50 exemplares mas no final foram publicados 100 exemplares – e eu nunca tive grandes pretensões para o livro mesmo. Como se tratava de uma editora nova com um catálogo muito pequeno, tive o prazer de lidar diretamente com todo o processo de edição, o que foi bem legal e me trouxe outros convites, como o de organizar uma antologia de contos para a editora. Tudo parecia ótimo, até que fui surpreendido com a noticia de que a Editora estava interrompendo suas atividades. A Antologia não vingou e eu herdei o estoque do Gigante da Guerra praticamente inteiro. A editora foi bastante gentil em me entregar os livros como cortesia e pedido de desculpas. No fim ela foi apenas outra vítima das agruras do mercado de distribuição nacional.

L: Como você lidou com o retorno dos leitores? Acha que esse feedback te ajudou a melhorar como autor?

DG: Eu adoro feedbacks. Adoro as críticas, adoro que me mostrem onde eu errei e onde eu posso melhorar. Sou uma pessoa muito tranquila nesse aspecto. Acho que só tem medo de crítica quem sabe que nunca vai conseguir fazer melhor e eu estou sempre tentando fazer melhor e diferente. O gigante foi bem aceito pelos seus leitores, consigo me lembrar apenas de duas criticas negativas. Em um grupo alguém que disse que o livro era insuportavelmente chato e que só conseguiu termina-lo porquê era curto e um comentário na amazona que disse que o começo pareceu meio clichê mas o final era surpreendente. Morro de curiosidade de saber mais, mas tenho a impressão de que as pessoas vão tomar como desafio se eu pedir detalhes, então fico esperando por mais notícias. Errar é parte do processo, acho bastante suspeito quando um autor julga sua obra perfeita.

L: Que dicas você daria para os participantes da NaNoWriMo 2017?

DG: Esfole os dedos, perca o sono, amaldiçoe a tudo e a todos, mas termine. Termine como se sua vida dependesse disso. Não perca tempo revisando e evite mudar seu planejamento. Não adianta colocar uma receita de bolo no meio da história só para ganhar umas palavras.

Se a história estiver parada, mate alguém. Se não puder matar ninguém, arrume um problema impossível para o seu personagem, mas nunca o ajude a sair dela, essa não é a sua função. Não se desespere com a contagem de palavras dos outros. Vai aparecer uns malucos com 50K na primeira semana, você não está competindo com ele. Seu único trabalho é terminar o seu livro. E, quando terminar, esqueça-o por um tempo.

Só então volte e o revise com olhos descansados, sem medo de reescrever. É ai que se separa o profissional do amador.

L: Agora aproveita e faz o seu jabá! 🙂

DG: Sou formado em produção editorial e em roteiro, atualmente tenho publicado a saga Chamas do Império pela Editora Draco e o Gigante da Guerra pela Editora Crown. Sou aficionado por literatura grimdark e posso ser encontrado na maioria dos grupos de escritores da internet. Dá para conhecer mais do meu trabalho nos sites diegoguerra.com.br e chamasdoimperio.com.br , também pela página do Chamas do Império no Facebook. Obrigado pelo seu tempo!

 

E você, como está indo nessa NaNo? Não importa a contagem de palavras, lembre do sábio conselho da Dory e “continue a nada”. Se quiser, compartilha sua experiência nos comentários 😉 E aproveita os links abaixo para comprar os livros do Diego Guerra.

 

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