[Resenha] A Canção das Sereias

“Existe algo de curioso a respeito do tédio: ele faz a coisa mais boba parecer interessante”. É com essa descontração que Renan Santos nos apresenta à A Canção das Sereias – sua noveleta introdutória ao universo de Erys, publicada em 2017.

A cavaleira Lynöre e sua discípula Reyrón são chamadas à cidade de Djussá para analisar um estranho fenômeno: sereias mortas foram encontradas nos mares daquela região, o que nunca acontecera antes. Diante de um navio misteriosamente desaparecido, sereias mortas em águas que não lhes pertenciam e uma população assustada, a Irmandade da Luz reúne uma pequena equipe para investigar a situação.

Esse é o pano de fundo em que Renan Santos se apoia tanto para construir a relação entre Lynöre e Reyrón quanto para apresentar as questões fundamentais de Erys: o conceito de ny (algo semelhante ao que entendemos como magia, seguindo, porém, princípios lógicos de funcionamento), a Irmandade da Luz e as Relíquias da Eternidade.

— Então temos sereias em nossos mares e um navio desaparecido. Acham que esses dois casos têm ligação?

Se eu bem conhecia minha mestra, aquela pergunta era um teste. Ela já tinha certeza da resposta, mas queria ouvir o que os outros dois pensavam.

A relação entre Lynöre e Reyrón segue o conhecido padrão de relacionamento entre mestre e pupilo comum em fantasias de capa-e-espada: um discípulo rebelde, mas talentoso, encontra um mestre ímpar e misantropo. Suas personalidades destoantes se complementam em uma frutífera parceria. Embora seja possível antecipar alguns dos confrontos e motivações entre as duas, observá-las em ação é magnífico – ponto positivo para o autor, cujas descrições precisas, diálogos bem elaborados e ótimos ganchos nos mantém conectados à história e curiosos quanto aos caminhos que Lynöre e Reyrón seguirão.

— Meu mestre Lourath disse-me uma vez que é preciso coragem e grandeza de espírito para admitir um erro e pedir desculpas por ele. — Ela se afastou e olhou direto em meus olhos. — E é preciso ainda mais coragem para fazer o que você fez hoje. Estou muito orgulhosa de você, Rey.

E me beijou na testa.

O último terço do livro me incomodou um pouco. O confronto em que os personagens são colocados, ainda que não tenha uma solução precária, passa a impressão de terminar antes que o necessário – entendo que é preciso emprestar velocidade às narrativas de ação, para adequar o ritmo de leitura, mas acredito que a cena tinha abertura para mais algumas páginas antes da conclusão do conflito.

Eu estava em choque. E de repente compreendi porque o Glória de Hastur jamais chegou ao porto de Nova Nyskar.

Quanto à Erys, conheço o universo desde que conheci Renan no Clube de Autores de Fantasia. É um mundo ao qual ele se dedica desde 2014, sempre preocupado em melhorá-lo e lhe dar sentido. A Canção das Sereias funciona não como prequel de seu futuro romance – A Semente do Caos – mas como uma porta de entrada para Erys, e suas formas de magia, criaturas e limitações. Um convite bem-acabado a um mundo que nos enche de por quês.

A Canção das Sereias está disponível na Amazon. Depois que você comprar, não deixe de deixar sua resenha ou dar algum feedback – via Skoob, Goodreads ou outro canal. Além dessa noveleta, Renan Santos também é autor do conto Aquarela de Sangue e mantém o site Ponto de Acumulação – em que faz resenhas, compartilha artigos e, anualmente, movimenta o Oscar Literário.

 

Já leu A Canção das Sereias? O que achou do livro? Tem outra história de fantasia ou de capa-e-espada que gostaria de ver resenhada por aqui? Fala pra mim 🙂

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