[Artigo] Por que gostamos tanto de histórias sobre zumbis?

Correndo o risco de parecer atrasada confesso: tive a ideia de escrever esse artigo depois de assistir à Invasão Zumbi (Train to Busan). Sou apaixonada por terror. Em especial pelas narrativas de terror orientais, que não costumam ter escrúpulos. Igualmente gosto de histórias de zumbis e, pelo que percebi, esse é o tipo de história que não perde o seu fascínio não importa em que momento apareça. Já nos cansamos das histórias de vampiros, de lobisomens e mesmo das distopias YA, mas corremos animados ao mero sinal da próxima história de zumbis que aparece. Por quê?

Os zumbis como os conhecemos atualmente são uma adaptação de lendas da África e do Caribe. A própria palavra zumbi tem suas origens nos termos ndzumbi – cadáver, em mitsogo – e nzambi – fantasma, no idioma quicongo. Ambas servem para descrever uma criatura sem domínio próprio, presa dentro de si. Uma espécie de morte em vida. Na religião vodu do Haiti acredita-se que alguns feiticeiros são capazes de ressuscitar alguém, transformando-o em seu escravo.

Aliás, se passa no Haiti a primeira obra literária a discorrer sobre o assunto: em A Ilha da Magia, o autor William B. Seabrook descreve suas experiências como membro “adotado” por uma comunidade indígena haitiana e seu suposto encontro com um verdadeiro zumbi. Antes disso, no campo da ficção especulativa, temos a obra de Mary Shelley – Frankenstein. Embora não trate necessariamente de zumbis, a obra de Shelley toca no ponto comum às narrativas dos mortos-vivos: a intervenção humana na vida gerando algum tipo de catástrofe maligna. A partir daí, teremos muitas obras abordando o assunto. Livros como Eu sou a Lenda ( Richard Matheson), Celular (Stephen King), A Menina que tinha Dons (M. R. Carey), Apocalipse Zumbi (Alexandre Callari) e mesmo obras menos pretensiosas como Sangue Quente (Isaac Marion) e Orgulho e Preconceito e Zumbis (Seth Grahame-Smith) reforçam nossa vontade de nos reencontrar com os mortos-vivos.

E por que as histórias sobre zumbis nos são tão caras? Por que nos reunimos diante de livros ou telas para apreciar criaturas que nos enxergam como comida?

A questão é que os zumbis testam a nossa esperança. Desde a infância somos impelidos a pensar no fim da humanidade por alguma via – intervenção divina, invasão alienígena, acidente astronômico. Qualquer dessas vias costuma ser rápida e limpa. Além de tudo, não depende da intervenção humana. Com os mortos-vivos é diferente: um apocalipse zumbi sempre tem os seres humanos como gatilho. Mais do que isso, o inimigo não é uma criatura desconhecida mas alguém como nós. Zumbis podem ser metáforas para muita coisa: consumo desenfreado, mau uso da tecnologia, questões de gênero e classe, colapso econômico, etc.

Em resumo, são metáforas para a esperança: há alguma? Deve haver? Existe alguma razão para que eu confie minha individualidade a movimentos – pessoais ou coletivos – sobre os quais sei tão pouco? A sobrevivência em um apocalipse zumbi costuma depender do trabalho conjunto de vários seres humanos. Em Invasão Zumbi vemos um grupo de pessoas, até então completos desconhecidos, dividir o pequeno espaço da cabine de um trem enquanto as estruturas do mundo que elas conhecem estão ruindo. A partir daí, qualquer ação é uma ação coletiva e dela depende a vida (ou as vidas) de alguém. Estamos prontos para nos entregar assim? A resposta pode estar na nossa própria reação às narrativas de zumbis: talvez não estejamos, mas gostaríamos.

E, é claro, enquanto espelho de nós mesmos, os zumbis irão evoluir. De seres conjurados por poções ou magias aos zumbis atuais, vítimas de catástrofes biológicas, eles sempre fazem referência à época em que se situam, aos seus anseios e medos. No passado, olhando para obras como White Zombie ou Night of the Living Dead, personificavam o medo do desconhecido, do novo, do selvagem – reflexo do período bélico em que se inserem (Entreguerras e Guerra Fria, respectivamente). Hoje, diante de produções como The Walking Dead e Invasão Zumbi, o que nós tememos?

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