[Resenha] Antologia Trópicos Fantásticos

Lançado em 2015, Trópicos Fantásticos é uma antologia de contos organizada pela Laís Manfrini do blog literário Sonhos, Imaginação & Fantasia com o apoio de outros sites do meio. Ao todo são quatorze histórias que utilizam como tema principal o cenário ou as lendas nacionais.

Obras no formato de antologia são muito bacanas, principalmente quando orbitam em torno de um tema específico. No entanto, não costumam dar tanta visibilidade aos autores quanto em uma pessoal . Pensando nisso, decidi fazer um breve resumo de cada um dos quatorze contos da antologia.

Ao lado do Rio – Jéssica Borges

Ambientado na São Paulo atual, “Ao lado do rio” conta a história de duas amigas de infância bastante peculiares – Isis é uma sereia e Tatiana é uma vampira. Quando suas filhas atingem determinada idade, Isis pede à Tatiana que as leve até o rio para que compreendam sua verdadeira natureza e se juntem a ela.

A história tem uma ótima abertura, bons diálogos e segue uma linha bastante consistente. Imaginar sereias nos rios de São Paulo me fez olhar para eles com outros olhos e ajuda a levantar a bola para o tratamento ecológico de rios poluídos. Apenas dois pontos me incomodaram: o Deus Ex utilizado para explicar o nascimento das sereias e o pouco desenvolvimento da Tatiana enquanto vampira. Exceto por isso ser mencionado no começo do conto, ao longo de toda narrativa ela parece uma pessoa comum.

Caçada – Thais Rocha

Artemis é uma vampira que acaba de desembarcar no Rio de Janeiro da década de 60 com um objetivo: reduzir a infestação de vampiros da região. Como um membro da nobreza, ela sente asco pela reprodução irresponsável de vampiros. Em uma de suas caçadas ela encontra Viktor, um lobisomem, que por sua nobreza de caráter conquista a confiança de Artemis, tornando-se seu companheiro de caçadas.

O foco da história é no romance entre os protagonistas e no nascimento de sua filha mestiça, Tykhe. Nesse sentido, o conto funciona como um prequel para o romance Tykhe, primeiro livro da Trilogia Tykhe publicado pela autora de forma independente pela Amazon e que você pode obter aqui:

 

O Devorador de Mentes – Renan Santos

Com uma pegada de terror bem bacana, somos apresentados à Lara, uma mulher afligida por algo que pode ser loucura ou possessão. O autor faz questão de nos equilibrar precariamente nessa linha tênue sem nunca dar certeza do que realmente está acontecendo. São sonhos ou coisas reais? As cicatrizes em seu corpo foram criados por Lara ou por outra criatura? E se essa criatura existe qual a sua natureza? Contudo, Lara tem certeza de que não está louca e, nesse ponto, a narrativa me lembra bastante o livro “O Menino que via Demônios” da Carolyn Jess-Cooke.
O Renan Santos toca o blog Ponto de Acumulação, onde publica resenhas, textos pessoais e fala sobre literatura. Vale a pena conhecer. Também é autor de Aquarela de Sangue, publicado pela Amazon e que você pode obter aqui:

Escuro – Kezia Garcia

Narrado em fluxo de pensamento, vemos o protagonista ser jogado do final de um dia totalmente comum para uma situação absurda e difícil de explicar. Trancado em sua casa, no escuro, ele não tem ideia do que aconteceu ou se é seguro sair. Na verdade, ele sequer sabe onde está a porta. Quando uma figura enigmática entra em sua casa, ele finalmente tem coragem de sair para tentar entender o que houve. A história fica em aberto, nos deixando na dúvida: foi uma invasão alienígena? Um tipo de vírus? Uma guerra? A ausência de explicação foi uma das coisas que me conquistou nessa história.

O Faxineiro – Fernando Tuna

Um dos contos mais divertidos e bonitinhos da antologia. Em um Brasil pós-apocalíptico, Johny trabalha explodindo cidades abandonadas a pedido do governo. Ele é um “Faxineiro”. Seu trabalho atual é a cidade do Rio de Janeiro e, enquanto prepara suas bombas, acaba encontrando em meio aos escombros um homem alado. Cheio de referências à cultura pop e à lenda de Ícaro, a história chama atenção pela delicadeza. A cena final abre espaço para muitas interpretações e é de uma delicadeza imensa.

A História de Jorge – Ana Lúcia Merege

Ana Lúcia Merege é autora da trilogia O Castelo das Águias, lançada pela Editora Draco. Neste conto, desenvolve a história de Jorge, um garoto descendente de libaneses, portugueses e índios que descobre que suas origens e raízes são bastante inusitadas. Com uma condução belíssima, Ana tece uma narrativa comum à maioria das crianças que, em dado momento, acabam por questionar se pertencem de fato à família em que estão. Ponto positivo para a mescla de histórias de imigrantes e locais.

Ipiranga – Jana P. Bianchi

A Jana P. Bianchi é autora de Lobo de Rua, da editora Dame Blanche, cuja resenha você pode ler aqui. A história é uma releitura da independência do Brasil a partir do encontro de D. Pedro I com uma iara. As lendas locais são colocadas em um novo patamar, tornando-se o fio condutor dessa mudança histórica. Os elementos descritivos e sensoriais são muito fortes e bem desenvolvidos, marca do estilo pessoal da autora.

A Mãe Garimpeira – John Lennon Silva

Em um garimpo nas Minas Gerais, José tenta ganhar a vida honestamente enquanto os amigos ao redor sonham com o dia em que serão visitados pela Mãe do Garimpo e receberão ouro o suficiente para sair dessa vida. Embora não tenha essa ambição, o garimpeiro começa a acreditar na existência da entidade quando seu amigo desaparece. Gostei bastante de como o ofício de garimpeiro é descrito e de como o autor conduz temas como ambição, necessidade e falta de recursos sem transformar o texto em um discurso de valor.

O que eu faria se tivesse uma Máquina do tempo? – Laís Manfrini

Em uma São Paulo pós-apocalíptica regida pela magia e pela tecnocracia, duas irmãs – Valentina e Elerina – se reencontram e precisam se unir para impedir que o Governo, com o auxílio de outros magos, utilize a magia de maneiras condenáveis. Para mim, o conto guarda uma estreita relação com outra história da autora, Não Heroína, que adquiri pelo Pacotão Literário. A autora apresenta um pendor natural para narrar alta fantasia e construir mundos baseados em magia.

Para nunca Esquecer – Anairam

Um dos contos mais simples da coletânea. Narra a história de Rubens que, em uma festa durante sua juventude, encontra uma moça por quem se interessa. No dia seguinte, ao tentar reencontrá-la, descobre mais sobre o passado da jovem. É uma narrativa sobre encontros entre humanos e fantasmas, muito comum de ouvir em cidades do interior.

A Porta – Charles Lindberg

Narrado em loop e ambientado em uma atmosfera onírica, vemos Duda passar por fragmentos de situações que se unem na tentativa de montar a silhueta de um contexto mais trágico. As repetições tornam a experiência de leitura muito intensa e dão abertura para muitas conclusões. Os fãs de Lovecraft vão gostar bastante.

Quando a Lua revogou Matinta Pereira – Tamires Branu

Após a morte de seu pai, Laura é forçada a retornar para a Amazônia afim de velar o corpo dele e ajudar a madrasta com os assuntos da casa. Nesse meio tempo, recebe a visita de uma estranha velha. É nesse instante que começam os problemas da protagonista. A história me fez lembrar da lenda de La Loba, uma lenda mexicana que fala sobre a força e o empoderamento feminino. Aliás, um ponto muito bacana nessa história é a quantidade de personagens femininas e a ótima interação que elas possuem umas com as outras.

Quem manda já morreu – Angelo Miranda

Angelo Miranda, autor do livro Análise Mortal, nos traz a história de Ruy, que trabalha em uma copiadora de São Paulo e, certo dia, recebe a visita de um cliente estranho solicitando cópias de um conteúdo assustador. Apesar do tom bizarro, foi um dos contos que menos me chamou a atenção embora me tenha lembrado algumas histórias de terror que costumava ouvir durante a infância.

Recomeço – Ana Luiza Figueiredo

Autora de O Mirabolante Doutor Rocambole, Ana Luiza conta a história de Gabriel, um garoto que mora com sua família em Niterói e que se vê obrigado a lutar por sua vida durante uma tragédia. Após sobreviver, Gabriel se torna protagonista de situações insólitas em um lugar bem distante de sua casa. A narrativa é doce e triste, falando sobre tragédia e esperança enquanto brinca com a lenda das moiras gregas.

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