[Entrevista] Editora Dame Blanche: um novo fôlego para a literatura especulativa nacional

No começo desta semana, os autores nacionais receberam uma maravilhosa notícia: o nascimento da Editora Dame Blanche – fundada por Clara Madrigano e Anna Fagundes Martino (contando com o suporte canino do estagiário River). Focada em literatura especulativa, a Dame Blanche deseja abrir espaço para obras com protagonistas surpreendentes e narrativas representativas que abram espaço para um novo tipo de ficção especulativa – uma menos limitada pelos padrões atuais. Como elas próprias falam no site da editora:

Queremos protagonistas que nos surpreendam, que nos cativem, que mostrem todo o potencial da ficção fantástica. Queremos feministas, heroínas que não esperem por um herói que as salve. Estamos à procura de talentos como Charlie Jane Anders, Nnedi Okorafor, Seanan McGuire, Maria Dahvana Hadley, Kat Howard, Helen Oyeyemi, Ken Liu, N. K. Jemisin.

Assim que soube da Dame Blanche corri para entrevistar as fundadoras, que foram bastante solícitas em me atender. Acompanhe o meu papo com a Clara e a Anna e saiba mais um pouco sobre a editora.

Literatividade: Por favor, apresentem a equipe da Dame Blanche para a galera 😉

Dame Blanche: Somos até o momento em três: duas editoras fanáticas por literatura,
fantasia, “Doctor Who”, e um estagiário canino, River Song.

L: Vocês podem falar de onde surgiu a ideia de fundar a Dame Blanche? O que
inspirou vocês?

DB: A ideia original foi da Clara, após uma troca de emails sobre textos que
gostaríamos de ler e que ninguém publicava por “falta de público”. Eu
(Anna) venho de redação de revistas e websites e sei que “falta de público”
é um fator relativo: o que é entediante para uma pessoa pode ser a festa de
outra, ainda mais nos dias pós-Internet em que tudo é segmentado a um nível
subatômico. De discussão em discussão, entre uma reclamação sobre o último
episódio do “Game of Thrones” (que eu não assisto, mas a Clara adora) e uma
lista do que o River andou mastigando e não devia, acabou surgindo a Dame
Blanche.

L: E como funcionou o processo de montar a editora?

DB: O processo ainda está rolando, para ser sincera. A parte técnica
(contratos, licenças, planilhas, custos) é bem complexa para duas pessoas
de Humanas, mas estamos aprendendo com uma grande ajuda dos amigos e muita
pesquisa de campo. Discutimos tudo e mais um pouco – não queira saber a
disputa que foi para dar o nome para a editora – e nem sempre concordamos,
mas a graça é justamente essa.

L: Falem um pouco sobre a linha editorial da Dame Blanche. Que tipo de
trabalhos vocês esperam receber?

DB: Acima de tudo, queremos boas histórias! E queremos diversidade: a ideia é
que o mundo das espaçonaves (ou o mundo das fadas, o submundo do terror, o
que quer que seja) tem espaço para todo mundo além do clássico protagonista
masculino, branco e bruto conquistando uma nação alienígena. Queremos
protagonistas que nos surpreendam, que nos cativem, que mostrem todo o
potencial da ficção fantástica.

L: Como a galera faz para enviar originais para vocês?

DB: As regras estão aqui. Recomendamos de
todo o coração uma boa lida nelas.

L: E aquele segredinho maroto para melhorar as chances de ter um original
aprovado? Ele existe?

DB: Claro que existe, e ele se chama “revise o trabalho antes de enviar”.
Gramática, pontuação, essas coisas simples. É o equivalente de se arrumar
direito para um primeiro encontro. Eu quero gostar do seu texto, eu quero
publicar: então, me convença de que vale a pena. Acima de tudo, não existe fórmula mágica: como a DB é formada por duas
pessoas com gostos que nem sempre coincidem, o que chama minha atenção às
vezes pode não ser do gosto da Clara. Então, não se acanhe, achando que sua
ideia é maluca. Pode ser que ela seja mesmo – e isso pode ser maravilhoso.

L: Uma vez que os autores tenham seu original aprovado, como vocês
prosseguirão? Os livros serão apenas digitais, apenas físicos ou haverá
uma mescla de produtos?

DB: Vamos trabalhar com os dois mercados: físico e digital.

L: Vocês pensam em prestar serviços que não necessariamente estejam ligados
à publicação? Por exemplo: leitura crítica, consultoria de marketing, etc.

DB: Não no momento.

L: Vocês têm planos para produção de HQs e Graphic Novels dentro da linha
editorial da Dame Blanche?

DB: Ainda não. Mas nada impede que isso aconteça no futuro.

L: O nascimento de novas editoras é sempre um sopro de fôlego para o
mercado literário independente do Brasil. Qual a perspectiva de vocês
quanto aos autores independentes nacionais?

DB: Somos aqueles que ralam muito e que tem que ouvir coisas como a maldita
frase “trabalhar por exposição”, sem pagamento e sem perspectivas. Por
isso, temos que nos unir e criar um ambiente em que o nosso trabalho seja
valorizado. Tem muita gente boa aí fora, só precisa mesmo parar para ouvir.

L: Alguma chance de encontrarmos vocês na Bienal do Livro de SP esse ano?

Anna: Espero que sim! Não em um estande, ainda, mas batendo perna e
comprando coisas, certamente.

Clara: Eu sou a parte da Dame Blanche que mora em Santa Catarina (com o
River); portanto, se eu der as caras na Bienal, me abracem forte, já que a
lenda diz que a criatura misteriosa conhecida como Clara só pode cruzar as
fronteiras entre os estados a cada sete anos.

L: Vocês têm algum conselho para os autores que ainda têm dúvidas sobre
publicar suas obras (sejam por editora ou como independentes)? E para quem
tem o sonho de montar uma editora?

DB: Para quem quer publicar: primeiro de tudo, paciência! Porque, de novo,
gostos nem sempre coincidem. O que é legal para você nem sempre é para a
editora que você procurou. E não caiam na conversa de editoras que cobram
para publicar. Seu trabalho é trabalho: ou seja, tem valor e deve te dar
algum lucro. Para quem sonha em montar uma editora: paciência e muita pesquisa. Não
adianta querer se tornar “a nova Penguin” ou “a nova Companhia das Letras”
– se isso acontecer, lindo, mas se não acontecer, lindo também: de novo,
tem espaço para todo mundo. E também há de se ter consciência de que
sucesso não vem da noite para o dia. Allen Lane, o fundador da Penguin,
dizia que só abriu a editora porque ele queria ter algo decente para ler no
trem e que não fosse tão caro para o público em geral. Deu no que deu.

L: Para finalizar, compartilhem conosco uma dica literária bacana. Vale
desde livro até newsletter 😉

Anna: Ando muito entretida com “Every Heart a Doorway” (Seanan McGuire).
Vale dar uma buscada por aí.

Clara: A Suma das Letras vai lançar “O problema dos três corpos”,
ficção-científica chinesa que foi vencedora do Hugo do ano passado, e
aconselho que todos agarrem uma cópia na primeira oportunidade. Me sentiria
uma farsa se também não recomendasse a newsletter da escritora Aline Valek (que
acabou de lançar um sci-fi pela Rocco, “As águas-vivas não sabem de si” e
o site da excelentíssima Lady Sybylla.

Gostaram? Vamos desejar muito sucesso às fundadoras e esperar pelos frutos da iniciativa – que eu acredito que serão incríveis. Importante! A Editora Dame Blanche estará recebendo originais até julho. Visitem a página da editora e em Contato façam um pitch do seu livro – ou seja, um breve resumo do que é a sua história. Não esqueça de caprichar 😉

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