[Resenha] Brasil Cyberpunk 2115 é uma aventura “adamsniana”

Não se engane. Por trás do título poderoso e da capa sugestiva, o que você encontra em Brasil Cyberpunk 2115 não é uma séria epopeia cyberpunk, mas uma história divertida cujo tom nos lembra a narrativa de Douglas Adams.

– Ah não, cê não vai vir com esse papinho agora? Depois cê leva um tiro na cara e me sobram esses dois sacos não sei do quê, daí aparecem uns DMs aqui na minha casa, me prendem em flagrante, escrevo minhas memórias na prisão, viro uma líder espiritual, ganho respeito da comunidade, tenho uma recaída com prostitutas, peço perdão na hipernet… Enfim, cê acaba com a minha vida.

A novela, escrita por Rodrigo de Assis Mesquita, nos insere em um mundo cyberpunk ideal ao nos apresentar um Brasil devastado, dominado por grandes corporações. A comunidade está constantemente conectada à hipernet e tem acesso a próteses e implantes tecnológicos, chamados amelhoramentos (Isso mesmo. Você não leu errado). Somos apresentados à protagonista Hel, que é colocada em uma situação complicada pelo amigo Cauã – um viciado em amelhoramentos sucateados e pouco confiáveis – depois que ele a informa que deixou no apartamento dela alguns pacotes suspeitos. E é aqui, meus amigos, que acaba a seriedade da coisa.

Rodrigo bebe da fonte de Douglas Adams. Une retalhos de narrativa, coloca tudo num imenso liquidificador e bate. Mas – parafraseando a cantora e escritora Amanda Palmer em seu livro “A Arte de Pedir” – numa escala de 1 a 10, Rodrigo bate esse caldo literário na velocidade três. O sabor é surpreendente, mas você ainda vê o dedo humano ali.

Assim que Hel se levantou para ir embora, a jukebox começou a tocar um dos maiores clássicos da música mundial, If you wanna be my lover, das Spice Girls.

Um ponto que me incomodou durante a leitura foi a velocidade da narrativa que, embora dê à estória um ritmo de ação contínua, falha em dar ao leitor tempo para se adaptar. A suspensão de descrença em um universo cyberpunk não costuma ser das maiores porque, em geral, estamos diante de uma realidade em quase tudo igual a nossa, com o acréscimo de um excepcional avanço tecnológico dentro de uma sociedade devastada (aliás, recomendo a leitura do artigo “O que é cyberpunk?” do blog Momentum Saga, para entender melhor o estilo!). No entanto, a inserção de elementos insólitos aumenta em alguns bons graus o termômetro da suspensão de descrença e, embora não traga grande prejuízo ao desenvolvimento da trama, me deixou confusa ao jogar diversas informações sem grande preocupação em explicá-las.

De qualquer forma, Rodrigo tece uma história divertida e com bons ganchos. Vamos da casa de Hel a um telhado de um prédio velho. De lá para o Café Grifo Negro e de lá uma confusão absurda dentro de um restaurante, sempre curiosos para entender o que diabos está acontecendo! É absurdo, mas um absurdo bacana, com ritmo, que, em minha opinião, peca apenas pelo excesso de elementos bizarros.

Brasil Cyberpunk 2115 está à venda na Amazon em versão digital. Uma continuação do livro já está programada, embora sem data definida para publicação. O título é Brasil Cyberpunk #2 – Recall e eu imagino que traga maiores explicações sobre a vida de Hel e sobre o que ela fez da vida após a desventuras com a Pit-sah e o presente que ganhou do Cauã.

O Rodrigo também mantém um site super bacana chamado O Grifo Negro (pegou? pegou?) e é colaborador no site do Clube de Autores de Fantasia. Não deixe de comprar o seu exemplar e, claro, lembrar de qualificar lá na Amazon após a leitura. Lembre que todo feedback é válido para um escritor auto-publicado 😉

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