[Artigo] Aos autores transgênero que nunca li

Este artigo foi inspirado no texto Apoie a escritora, de Aline Valek. Vale a leitura 😉

Gostaria de começar me desculpando. Por todas as vezes em que usei os termos “traveco”“mulher-macho” e outros do gênero, eu peço perdão. Vocês não merecem isso. Eu poderia colocar a culpa na falta de conhecimento, na coisinha sem valor que era minha cabeça à época. Gastar todo meu português com as desculpas que comumente pululam por aí do tipo “é só uma brincadeira”, mas a verdade é que foi pura falta de empatia. Então, por favor, quando e se puderem, me desculpem.

Eu pude conhecer Alliah e Maria Clara Araújo – e que prazer imenso foi! Quanta coisa eu pude aprender. Mas e quanto aos demais escritores transgênero? Onde estão suas obras? Certamente, não ao alcance fácil das minhas mãos. Suas obras estão escondidas – aliás, como a sociedade obriga que sejam suas vidas em geral. Porque, em inconsciente imitação de distopias, nos desagrada tanto o “diferente” que não basta que seja invisibilizado – precisa ser destruído!

Os livros dos autores transgênero que nunca conheci foram queimados antes de chegar às prateleiras. Foram rasgados, picotados, destruídos – muitos antes mesmo de serem paridos. Diz Virgínia Woolf: “O preço barato do papel é a razão por que as mulheres começaram por ter êxito na literatura, antes de o alcançarem noutras profissões.” Aos escritores transgênero que nunca conheci foi negado mesmo isso, o papel barato, que deveria pertencer a qualquer um. Mais que isso, aos escritores transgênero que nunca conheci faltou o básico: o acesso à educação necessário para transformar suas ideias em palavras, o apoio e a estrutura familiar, a segurança de ir e vir. Porque, ao colocar os pés do lado de fora de suas casas, eles podem nunca voltar. Isso sem contar nos constantes abusos psicológicos porque passam as pessoas transgênero. Suas histórias podem – literalmente – morrer com eles. Muitas já morreram.

Quanto a mim, estou cansada do padrão que a indústria literária nos força goela abaixo ano após ano. Estou cansada de ver os prêmios serem entregues ao mesmo grupinho homogêneo de autores. É por isso que tenho apostado com tudo que tenho no mercado indie. É por isso que iniciativas como Universo Desconstruído e o Manifesto Irradiativo são tão incríveis – abrindo à força o espaço que deveria pertencer, desde sempre, para as narrativas de quem hoje chamamos de “minorias”. Que 2016, com seu ENEM em que tantos transsexuais – contando com o esforço próprio ou com o apoio de grupos de estudo que ganharam força após a aprovação de Maria Clara Araújo na UFPE – conseguiram realizar o sonho de ingressar em uma faculdade, nos traga essas mentes poderosas que por tanto tempo neglicenciamos. Que dessa vitória brotem os profissionais que eles tanto querem/merecem ser. Que eu possa finalmente conhecer os autores transgênero que ainda não conheci.

Hoje comemoramos o Dia da Visibilidade Trans. No dia 25, seria o aniversário de Virgínia Woolf – uma autora que à sua época se esforçou muito para conquistar seu espaço. Foi dessa luta diária que nasceu o ensaio “Um teto todo seu”, em que ela afirma que “uma mulher precisa de dinheiro e de um teto todo seu se quiser escrever ficção”. Essa afirmação, tão atual, é ainda mais verdadeira às pessoas transgênero que querem conquistar seu lugar ao sol na literatura. Em geral, elas precisam de toda uma base que lhe é negada – a base que costuma ser tão comum na vida de nós, cisgênero.

Que as pessoas trans deixem de ser invisíveis para nós. Que possamos nos unir à sua luta sem lhes roubar o lugar de fala, sem menosprezar suas dores ou suas pautas. Isso é importante para a construção de uma arte que seja, de fato, diversificada . Para o nascimento de um espaço seguro para todos. Embora hoje seja o Dia da Visibilidade Trans, façamos um esforço para que em todos os outros as pessoas transgênero nunca mais sejam invisíveis em nossa realidade.

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