[Artigo] Porque você deveria conhecer “Hamilton: An American Musical”

Alexander Hamilton
My name is Alexander Hamilton
And there’s a million things I haven’t done
But just you wait, just you wait…

É assim que somos introduzidos ao eletrizante universo de Hamilton: An American Musical. Produzido pelo ator e compositor Lin-Manuel Miranda, o musical tem sido considerado a nova sensação da Broadway, com músicas compostas na batida do rap e do hip-hop e um elenco que salta aos olhos pela diversidade (por exemplo, os personagens Hamilton, Jefferson, Burr e Washington – grandes ícones políticos dos EUA – são interpretados por negros e latinos). E foi com toda essa diversidade que Hamilton conquistou não apenas mais de 200 mil ingressos vendidos, mas o respeito e o prestígio da comunidade artística.

Lin-Manuel sendo amorzinho! <3

“Hamilton foi um filho bastardo, órfão, que deixou a ilha caribenha em que nasceu para migrar e se tornar um dos líderes da fundação do país. A trajetória dele é como a dos ícones do rap”, afirma Lin-Manuel.

Em entrevista ao The New York Times, o compositor Stephen Sondheim afirma: “Miranda nos leva a pensar diferente. Sempre há os inovadores, aqueles que inauguram experimentações com novas formas.” O discurso de Sondheim é endossado pelos rappers do grupo The Roots: “Esse trabalho é tudo o que a Broadway e Nova York são em pleno 2015.”

Fui apresentada ao musical em um tópico do grupo do Manifesto Irradiativo. Bom, é claro que não pude ir até NY assistir ao musical por motivos de pobreza eterna e irreparável distância. Mas, graças ao Spotify, tive acesso ao soundtrack  do show. Confesso, não sou fã de musicais. O estilo Disney de cantarolar não me atrai, e fiquei bastante receosa de dar o play. Se eu não o tivesse feito, certamente a essa hora estaria assim:

A história gira em torno de Alexander Hamilton, um dos pais fundadores dos EUA e o primeiro Secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Hamilton também teve enorme influência na semeadura dos fundamentos do capitalismo no país, desenvolveu o sistema financeiro nacional e foi o fundador do Partido Federalista. Agora vocês podem me perguntar: Mas o que tudo isso tem de tão extraordinário? E a resposta é: Alexander Hamilton era um rapaz pobre, filho bastardo  de um mascate escocês e de uma prostituta francesa, nascido no Caribe. Logo cedo, ficou órfão. Começou a trabalhar com contabilidade aos onze anos e, após escrever um poema, recebeu a proposta de uma bolsa de estudos. Então Hamilton migrou para os EUA, e lá iniciou sua caminhada para se tornar um dos pais fundadores do país.

                                                 I’m young, scrappy and hungry!

“É como Jay-Z escrevendo sobre a vida no conjunto habitacional em que vivia na esperança de sair de lá. Ou Eminem escrevendo sobre Detroit e as batalhas de rap que enfrentou. Hamilton era um desses, usou a literatura para chegar ao topo”, diz Lin-Manuel, que considera os ícones pop uma poderosa referência.

You’re an orphan. Of course! I’m an orphan
God, I wish there was a war!
Then we could prove that we’re worth more
Than anyone bargained for…

No trecho acima, Hamilton conversa com Aaron Burr sobre a possibilidade de ir à guerra para provar seu valor. Como um rapaz pobre e autodidata, Hamilton gera rápida identificação com boa parte da população norte-americana: pessoas que precisam, diariamente, superar desafios e adversidades para conseguir chegar a algum lugar. E, claro, mais do que uma referência para os norte-americanos, Hamilton, com seu elenco, sua escolha por um gênero musical pop e – claro – sua história por si própria, é uma referência muito forte para qualquer um que precise lutar bastante por seu lugar ao sol. É a história dos nossos próprios ícones pop nacionais – os Racionais, Projota, Crioulo e tantos outros.

Look around, look around at how
Lucky we are to be alive right now!
History is happening in Manhattan and we just happen to be
In the greatest city in the world!

Outro ponto forte do musical é a representatividade feminina, sob a forma das irmãs Schuyler – Angelica, Eliza e Peggy. As personagens são interpretadas por atrizes incríveis, cuja coreografia traz forte inspiração no estilo do grupo Destiny’s Child e em cantoras como Beyoncé e Rihana. Quanto às personagens, são por si mesmas poderosas mulheres de sua época. Angelica Schuyler foi uma mulher à frente do seu tempo, correspondendo-se com grandes nomes políticos como George Washington e o Marquês de Lafayette. Eliza, esposa de Hamilton, foi a responsável por divulgar os estudos produzidos por seu marido e defendê-lo das inúmeras críticas que recaíram sobre ele após sua morte. Não por acaso, a elas é dado o título de “Mães Fundadoras”.

                                  Work!

Estamos diante de uma obra forte e honesta: não há perfeição nos personagens, eles são humanizados, aproximados ao máximo do público. Nós rimos com o divertido encontro de Hamilton com seus amigos revolucionários em The story of tonight, sentimos a dor da escolha de Angelica em Satisfied, nos livramos do conceito maniqueista de herói-vilão ao conhecermos melhor Aaron Burr em Wait for it, e compartilhamos da solidão de Eliza em That would be enough. Hamilton cumpre seu papel quando nos faz imergir na história, nos tornando mais que espectadores – somos coadjuvantes da Guerra da Independência e de suas consequências, torcendo por nossos favoritos e acompanhando de dedos cruzados o desenrolar da trama.

Recomendo demais que vocês escutem a soundtrack de Hamilton. A letra das músicas está disponível no Genius, e elas estão cheias de referências vão ajudá-los a entender um pouquinho melhor a história (eu fui mais longe e saí catando tudo que pude em sites de história americana, que são mais completos).

Nesse link aqui vocês podem ler a troca de correspondências entre os “Founders”, entre elas, muitas das que Angelica Schuyler escreveu. Está tudo em inglês, mas é bem bacana.

Os  lindos vídeos aqui embaixo são, por assim dizer, cortesia do Nem um pouco épico, que também deu seus dois dedos de prosa sobre o musical e você pode ler aqui. Eles selecionaram alguns vídeos que levam para outros que levam para outros, num delicioso loop infinito. Selecionei alguns, para vocês sentirem o gostinho da maravilha que é esse show.

 

 

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