[Resenha] Lobo de Rua – São Paulo revelada

“O registro da desgraça eterna do menino não podia ser mais apropriado: manchando sua cama improvisada, a lágrima de sangue simbolizava, ao mesmo tempo, o desamparo de seu presente e a maldição que o aguardava no futuro.”

Em um canto qualquer nas ruas de São Paulo, um garoto de rua sofre. Está doente e sente dores. Pessoas passam por ele sem percebê-lo – ele é invisível. Um indigente. Para quem conhece a rotina paulista – ou de qualquer outra grande capital – a cena é quase corriqueira. E é em cima dessa aparência de coisa comum que a autora Janayna Bianchi Pin molda o universo de Lobo de Rua. A história gira em torno de Raul – um garoto de rua como muitos que você já viu por aí – que descobre sofrer de uma terrível maldição: a licantropia. Exatamente: Raul é um lobisomem.

Em seu caminho, ele encontra Tito – um lobo solitário, com muitos anos de maldição nas costas e que não esperava cruzar com um filhote àquela altura da vida. Principalmente, com um filhote tão carente de referências. Tito ajuda Raul a suportar uma das noites que antecedem a transformação e, a seguir, se dispõe a tentar esclarecer aquela nova perspectiva de vida para o garoto e ajudá-lo a suportar as dores da transformação completa – a noite de lobo solto.

Eu e o Lovecraft estamos aqui te fazendo uma inveja com essa edição física babaaaado! Autografada e tudo <3

Pelos olhos de Raul e Tito, Janayna Bianchi nos apresenta a uma nova São Paulo – ou a uma São Paulo que sempre existiu, mas que jamais conseguimos enxergar. Não apenas uma cidade com suas ciganas poderosas (adorei a cigana Soraia, rolou uma identificação por aqui!), suas histórias de caçadores e locais abandonados e seu subterrâneo fantástico (na qual estão o Minotauro e a incrível Galeria Creta, onde seus desejos se realizam de um modo ou outro); mas uma cidade de almas miseráveis, minúsculas aos olhos dos seres banais.

Quando Raul mergulha na teia que liga a mente de todos os seres existentes e percebe o quão insignificante é (e que isso nunca irá mudar pois, dos insignificantes, ele é o maior) a autora está desenhando um retrato do nosso descaso com o que nos cerca. Com sua escrita crua, verossímil e visceral, ela nos lembra que embora coisas maravilhosas estejam a um braço (ou seis conexões) de distância, estamos com os olhos embaçados demais para perceber.

“O primeiro que conhecera da raça: o pobre de um filhote de lobisomem vira-latas. Um lobo de rua.”

Já conhecia a Janayna das discussões bacanudas do Clube de Autores de Fantasia no Facebook. Porém, só agora no comecinho do ano adquiri meus exemplares (o digital e o físico, porque sou dessas!) de Lobo de Rua. Não sou nenhuma expert do mercado literário nem coisa que o valha – mas aposto em Janayna Bianchi como um dos futuros grandes nomes da literatura fantástica nacional. Além de criatividade e talento, a autora tem aquela capacidade única de segurar a mão dos seus leitores e levá-los com carinho para os lugares mais incríveis e mais sombrios. O estilo fluido e bem amarrado de sua narrativa é encantador! Uma vez que você mergulha na São Paulo de Bianchi, não quer mais sair. A empatia com os personagens é certeira!

Lobo de Rua está disponível em formato digital na Amazon. Para obter uma cópia física, entre em contato com o Minotauro (querido!) pelo e-mail galeriacreta@gmail.com. Obtenha seu exemplar e não deixe de recomendá-lo aos amigos, vizinhos, tias chatas e papagaios! Todos merecem um Lobo de Rua para si.

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