[Artigo] Um pistoleiro negro incomoda muita gente

Essa semana, os fãs da saga A Torre Negra – uma das principais obras de Stephen King – receberam a notícia de que o ator Idris Elba era o favorito da Sony para encarnar o pistoleiro Roland de Gilead, protagonista da história. E isso foi o suficiente para que uma onda de chorume invadisse a internet. Explico: Roland é um personagem inspirado em Clint Eastwood – portanto, branco de olhos azuis no melhor estilo galã. Já Idris Elba é negro. E isso não agradou em nada boa parte do público.

Para quem não conhece, Idris Elba é aquele cara fantástico que interpreta o Mandela no filme “Mandela: Lonk Walk to Freedom”, o Heimdall em “Thor” (aliás, outra película em que sua participação foi questionada por ser um ator negro interpretando um personagem, em teoria, branco), o Stacker Pentecost em “Pacific Rim” e – mais recentemente – dá vida ao comandante em “Beasts of No Nation”, produção do Netflix.

Isso aí, Idris! #partiu salvar a Torre Negra!

O principal – talvez único – argumento para que Roland não seja interpretado por um negro está ligado à sua relação com Odetta Holmes, outra personagem de A Torre Negra. Odetta é uma mulher negra nascida nos Estados Unidos à década de 1960 – rica, bem-educada e ativista dos direitos civis negros. Por sua raça e pelo contexto da época, Odetta sofreu bastante com o racismo. Ela possui uma segunda personalidade – Detta Walker – que é seu oposto: sádica, dona de um vocabulário chulo e recheado de palavrões. Detta Walker adotou formas moralmente discutíveis para se rebelar contra o sistema opressor branco. E aqui chegamos ao aparente cerne da questão: Roland não pode ser negro porque isso quebraria toda a suposta “tensão racial” que existe entre ele e Detta Walker. Por consequência, toda – eu repito, TODA – a história de A Torre Negra perderia completamente o seu sentido.

Rebato com os seguintes pontos: Detta teme Roland primordialmente porque ele é um homem. A figura de Roland atemoriza Detta – afinal, ele é um pistoleiro –  e ela reage com agressividade. Ele ser branco é apenas a cereja do bolo. Em segundo lugar: A Torre Negra não gira em torno do “conflito racial” entre Roland e Detta. O foco da história é a busca pela Torre Negra, a necessidade de protegê-la e tornar a colocar em ordem um multiverso que desmorona. A Torre Negra fala sobre a jornada do herói. É uma excelente metáfora sobre o ofício da escrita, sobre como as histórias, embora surjam de um caldo primordial sobre o qual o escritor tem algum controle, acabam criando vida própria.

Odetta Holmes (ou Susannah Dean, que é como ela prefere, e eu também) tem suas questões raciais muito bem construídas, eu agradeço – mas esse não é o foco da história. Ao chegar ao Mundo Médio, ela deixa de ser “a negra” para se tornar “a pistoleira” – a única  mulher pistoleira existente. Portanto, com um Roland negro perdemos apenas alguns diálogos envolvendo a expressão “esse branquelo” – e derivados.

Então porque o assunto causa tanto incômodo? Bem, porque estamos acostumados a um espaço de privilégios que é confortável para nós. Estamos acostumados às nossas referências, que são a maioria – personagens brancos, personagens de classe média, personagens heterossexuais. Em resumo: personagens que se encaixam perfeitamente ao que nós somos em nosso cotidiano. E alguns de nós ficam muito, muito irritados quando alguém invade a caixinha de areia do playground. O whitewashing – ou seja, o embranquecimento de personagens nas obras artísticas – um apelo visto principalmente em filmes – parece não gerar grandes incômodos, não é? Não vi toda essa comoção quando a personagem Katniss Everdeen foi interpretada por uma atriz caucasiana – embora, ela seja claramente descrita como uma jovem com “pele cor de oliva”, ou seja, algo muito próximo da pele árabe ou latina. No entanto, Rue ser negra causou muito incômodo nos “fãs” da série, não obstante ela seja claramente descrita como negra. Cinna negro?! Meu Deus, oh Discórdia! Mas a cor de sua pele sequer  é descrita, por que todo esse desconforto então?!

Personagens negros incomodam. Miles Morales, o novo Homem-Aranha, teve uma péssima recepção. Michael B. Jordan interpretando o Tocha Humana no reboot de O Quarteto Fantástico causou um furor de raiva descontrolada. O ponto em comum é que são negros no papel de personagens entendidos como brancos. A argumentação geral pode ser resumida em “não faz sentido tal personagem ser negro porque… Porque eu não quero!”. Por que os personagens negros causam tanto incômodo? Odetta Holmes tem, de fato, questões raciais a resolver que são as responsáveis pelo surgimento de sua segunda personalidade – ou seja, o desenvolvimento da esquizofrenia de Odetta está relacionado à cor de sua pele. Por esse motivo, ela ser negra é essencial à história. Os demais personagens podem ser brancos, amarelos, rosados, azuis, sem qualquer prejuízo ao enredo.

Mas vocês sabem qual a maior piada aqui? As mesmas pessoas que são contra um Roland Deschain interpretado por Idris Elba acreditam que ele faria um ótimo Randall Flagg. Flagg é o antagonista da saga – uma das mentes a serviço da queda da Torre. Curiosamente, Flagg também é descrito como um homem caucasiano. “Mas é claro que em um papel secundário, com pouco destaque e dando vida a um vilão, Idris Elba é totalmente bem-vindo, é claro, não digam que somos racistas, nós até temos amigos negros!”

Me chamem de “politicamente correta” – e leiam o que o tio Gaiman tem a falar sobre isso – , de “social justice warrior” (WTF?!), mas é um momento tão delicado, em que grupos oprimidos lutam contra uma invisibilidade imposta há anos – que cerceou não apenas sua liberdade como suas oportunidades – em que pessoas e indivíduos se unem em torno da hashtag #seraqueeracismo para relatar sua vivência, não cabe a nós – grupos privilegiados – levantar a voz. Ela está erguida há muito tempo, amigos. Roland Deschain foi descrito como branco não apenas pela referência a Clint Eastwood, mas porque escrever sobre homens brancos é o padrão da literatura. Deixem Idris Elba ser o nosso Roland. Ele é um ator excelente e não tenho dúvidas de que fará a única coisa que é realmente essencial para o andamento da história – encarnar o espírito romântico, persistente e pouco imaginativo do último pistoleiro vivo.

Stevie, seu noob! E as questões raciais sem as quais a obra perde TODO o sentido?!

 

 

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