[Artigo] Mulheres, Literatura e apagamento

Na semana passada uma das páginas que acompanho postou uma chamada questionando seus seguidores sobre quantos autores de fantasia nacional eles leram. A proposta – muitíssimo válida – me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro deles, o crescimento do mercado de fantasia nacional, cuja qualidade e visibilidade aumentam gradativamente – para nossa alegria! O segundo – e que serviu de mote para esse post – foi a imagem da chamada, com a foto de doze autores nacionais: havia apenas uma mulher. Uma entre doze.

O apagamento da imagem feminina na Literatura não é recente. Em outro artigo eu comento sobre a invisibilidade das minorias e o perfil do autor brasileiro – homem branco, heterossexual, cisgênero. Não cabe a mim discorrer em excesso sobre o apagamento dos demais grupos – o protagonismo, no fim das contas, é de direito deles – mas estou apta a falar da invisibilidade feminina.

Vamos primeiro falar sobre as personagens: os YA atuais nos trouxeram boas referências de mulheres enquanto protagonistas. Como exemplos, temos Katniss em Jogos Vorazes, Beatrice em Divergente e Clary em Instrumentos Mortais. Isso em livros populares, amplamente conhecidos. No entanto, em termos comparativos, ainda temos pouquíssimas mulheres à frente de um enredo ou como figuras importantes para o desenvolvimento da história. Em geral, a participação da mulher é rasa. Ela é uma figurante, irmã, amante ou amiga do protagonista – geralmente um homem – cuja função costuma ser a de trampolim emocional para ele. Sua presença é tão superficial que poderia passar batida, sem grandes alterações no curso da história. Outro lugar-comum é termos uma mulher protagonizando a história, mas necessariamente ligada à figura masculina. Em 1Q84, de Haruki Murakami, o personagem Tamaru afirma em certo ponto: “Segundo Tchekhov, se uma arma aparece na história, ela tem de ser disparada.” Parece existir a mesma obrigação ao se inserir uma mulher no enredo: em certo ponto, ela deve estar ligada emocionalmente a um homem. (O livro de Murakami, aliás, não foge à essa regra). Queridos, lembremos de Elsa! A ligação mais forte que ela possui é com a irmã, Anna.

E isso acontece na vida real também: as mulheres não estão integralmente conectadas ao homem. Existem lésbicas, existem assexuais, existem mulheres que simplesmente não querem relação ou cujo círculo de convivência é quase que inteiramente feito por outras mulheres. E isso pode e deve ser retratado também. A realidade é múltipla, amigos. O justo seria que os livros que amamos conseguissem captar isso.

No que diz respeito às autoras, a situação não é muito melhor. Basta observarmos como as grandes editoras parecem querer esconder a identidade feminina atrás de siglas, nos forçando a – involuntariamente – correlacionar a obra a um homem. Mais que isso, desde obras de suspense, passando pela ficção científica até contos de terror, quando escritos por mulheres esses livros pairam no estranho limbo chamado “literatura feminina”, que coloca como irmãos gêmeos obras como Os Delírios de Consumo de Becky Bloom e Precisamos Falar sobre Kevin. Lógica, oi?!

Como afirma a escritora Márcia Camargos:

“Não há uma diferença de qualidade literária entre o homem e a mulher. Existem pequenas diferenças no olhar feminino pelo papel que a mulher desempenha na sociedade, mas isso não influencia a qualidade.”

A literatura feita por mulheres não é menos séria, menos profunda tampouco menos significativa. No entanto, o mercado nos condiciona a ler homens, aplaudir homens, aceitar que a maioria dos prêmios literários seja entregue a eles (e o Nobel de Literatura desse ano foi uma grata surpresa, com a indicação da bielorussa Svetlana Alexievich). Um exemplo simples de que o mercado editorial nos empurra homens goela abaixo foi a edição de 2014 da Flip. Nas palavras da Laura Folgueira (sócia da querida editora Kayá, cuja proposta é publicar mulheres):

“Há gente de todo o tipo: fotógrafos, pesquisadores, acadêmicos, ficcionistas, poetas… E, principalmente, há homens. O curador é homem (sempre foi). O diretor-geral é homem. O homenageado é homem (também sempre foi, com apenas uma, notável, exceção, em um já longínquo 2005). Os convidados, bem, são em sua grandessíssima maioria homens: as mulheres são apenas sete, ou 15%.”

Por sorte, vemos brotar movimentos que estimulam a leitura de nossas autoras, como o Clube de Leitura da revista Capitolina e as iniciativa Leia Mais Mulheres e KD Mulheres. O debate tem ganhado força na web, vide o episódio 142 do Cabuloso Cast“Mulher e Literatura” – e o 193 do AntiCast “Os Asimovs que não amavam as mulheres”. Mas não basta apenas aplaudirmos essas iniciativas, temos que incorporá-las ao nosso cotidiano, tornar natural ler mulheres e escrever personagens femininas que não sejam estereotipadas e possuam vida própria e um enredo tão trabalhado quanto os de seus pares masculinos. E se você não sabe por onde começar, deixo de presente para vocês esse post do blog Ativismo de Sofá, que traz uma lista de escritoras maravilhosas, algumas brasileiras inclusive. Vamos criar o mundo em que haja mais que uma mulher na relação de escritores sobre os quais queremos falar.

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