[Artigo] Representatividade e Inclusão na Literatura

Responda rápido: dos três últimos livros que você leu, quantos dos personagens cruciais para o desenvolvimento da trama eram negros? Quantos eram mulheres, homossexuais, bissexuais, transsexuais? Quantos eram portadores de alguma deficiência física? Agora mude o foco: dos três últimos livros que você leu, quantos autores se encaixam em algum dos grupos listados acima? A menos que você seja um leitor voraz, extremamente eclético e com uma lista de leitura peculiar, é possível que nenhuma das suas últimas leituras preencha esse perfil. Talvez uma, no máximo. Qual seria o motivo? Eu respondo: nos falta representatividade

Esse é um problema estrutural na produção literária. Em 1929, Virgínia Woolf afirmava que uma mulher que quisesse se dedicar ao ofício da escrita precisaria de estabilidade financeira e um “teto todo dela”. A realidade não parece ter se modificado muito até hoje – não apenas para as mulheres como para todas as demais minorias.

Em sua pesquisa “A Personagem do Romance Brasileiro Contemporâneo”, a professora Regina Delcastagnè estudou 258 obras brasileiras publicadas no período entre 1900-2004, no intuito de entender quem é o autor brasileiro e que tipo de personagem é construída por este autor. O resultado da pesquisa apresentou um padrão muito homogêneo para ambos: de forma geral, trata-se do homem branco heterossexual de classe média (e, embora não tenha entrado nos termos da pesquisa, eu incluiria a cisgeneridade nesse padrão). Foi um resultado que surpreendeu a professora, que esperava  – pela mestiçagem característica do nosso país – maior representatividade nas obras, fosse incluindo personagens pertencentes às minorias, fosse usando a invisibilidade dessas minorias como palco para crítica. Nas palavras dela:

“Reconhecer-se em uma representação artística, ou reconhecer o outro dentro dela, faz parte de um processo de legitimação de identidades, ainda que elas sejam múltiplas. Daí o estranhamento quando determinados grupos sociais desaparecem dentro de uma expressão artística que se fundaria exatamente na pluralidade de perspectivas.”

Eu pretendia fazer um infográfico que resumisse essa pesquisa, mas além da minha falta de habilidade, acabei achando um super bacana feito pela galera do Ponto Eletrônico.

Representatividade não é assunto de “chatos politicamente corretos”. Pelo contrário, é um assunto bastante relevante que nós, enquanto autores, precisamos levar em consideração. Isso não significa que TODAS as obras que você criar necessariamente devam incluir TODAS as minorias existentes. Significa que, enquanto autor, você deva repensar os personagens que está criando. Vamos fazer mais um exercício: das suas últimas obras, quantas são representativas (ou seja, incluem os grupos dos quais estamos falando)? Eu fiz esse exercício e me envergonhei com o resultado. Em boa parte das minhas histórias não havia qualquer motivo para que o protagonista branco heterossexual não pudesse ser uma mulher negra. Um homossexual. Um cadeirante. Em se tratando de literatura especulativa, há ainda menos espaço para obras racistas, capacitistas, homofóbicas, etc. A menos, é claro, quando a ausência desses grupos serve a uma crítica. E, cá entre nós, precisa ser uma crítica muito boa.

Uma prova de que a representatividade é extremamente importante para o meio literário (e, ao mesmo tempo, um grande tabu) foi a polêmica em torno do prêmio Hugo Awards desse ano. O Hugo Awards é a mais importante premiação no universo de literatura fantástica e ficção científica. Nos últimos anos, o Hugo tem se mostrado aberto à diversidade tanto de autores quanto de obras, o que gerou inquietação dentro de um grupo de conservadores auto-denominada Sad Puppies. Segundo eles, a presença dessas pessoas/obras diminuía o valor do que consideravam como “verdadeira ficção científica” (seja lá o que isso signifique). A Sybylla, do Momentum Saga, fez um post sobre o assunto cuja leitura eu super recomendo. Em tempo, a diversidade imperou na premiação de 2015 sim, apontando que a questão da representatividade é uma tendência sólida para a literatura mundial. Se você tiver interesse, pode conferir os ganhadores de 2015 aqui.

Um movimento que vem ganhando forma é o Manifesto Irradiativoque busca inserir maior visibilidade aos grupos excluídos na literatura especulativa. Entre as ações do grupo estão a abertura de espaço para que escritores bi e transsexuais possam expôr suas obras, além de um curso com o intuito de ajudar autores cisgêneros a escrever sobre personagens transgêneros. Nos dias 7 e 8 de novembro desse ano ocorrerá em São Paulo o primeiro Encontro Irradiativo , onde leitores e autores de literatura especulativa poderão se encontrar para debater a questão da diversidade nos livros. Se puder, não deixe de comparecer ao encontro (e de assinar o Manifesto, é claro).

Em uma época de tantas mudanças sociais e políticas, precisamos sim levantar a bandeira da diversidade não apenas na literatura, mas em todas as manifestações artísticas. É preciso que todos se sintam representados, que todos tenhamos referências para além dos estereótipos. Como diz a professora Regina Delgastagnè:

“(…) a representação artística repercute no debate público, pois pode permitir um acesso à perspectiva do outro mais rico e expressivo do que aquele proporcionado pelo discurso político em sentido estrito.”

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