[Artigo] As mulheres no mercado literário

Ontem participei de um evento organizado pela Editora Com-Arte, a editora laboratório do curso de Editoração da USP. O evento “Anônimas: Mulheres na Literatura e no Mercado Editorial” teve como mediadora a Clara Browne, editora da revista Capitolina e contou com a presença da Jarid Arraes (cordelista e autora do livro “As lendas de Dandara”), da Julia Bussius (editora da Companhia das Letras) e da Laura Folgueira (Editora Kayá). O auditório estava lotado: várias mulheres (e homens também!) procurando entender o espaço da mulher no mercado editorial e literário.

           ~ correndo para abraçar as amigas escritoras ~

 

Seguindo um viés feminista (muito amor!) as meninas apontaram as diversas diferenças de tratamento entre um autor e uma autora. Enquanto os homens podem se expressar livremente, criar personagens que beiram o autobiográfico, discutir assuntos polêmicos sem que se levante tantos questionamentos sobre a capacidade deles para tanto, a literatura criada pelas mulheres é prontamente classificada como “literatura feminina” (alguém me explica o que é isso?) e marginalizada. Como as convidadas apontaram, não importa se o livro retrata temas densos, se é uma trama de suspense, se envolve assassinatos em série ou invasões alienígenas – uma vez que o livro seja escrito por uma mulher ele é automaticamente considerado “leve e cor de rosa”, um autêntico chic lit (é isso aí, Lionel Shriver, seu Kevin é chic lit). E, por favor,  não entendam isso como uma crítica ao gênero chic lit, não tenho a intenção de diminui-lo (até porque adoro Jojo Moyers, por exemplo), mas o que as mulheres escrevem está além das aventuras de Bridget Jones.

Eu pretendo explanar com mais propriedade sobre a presença feminina no mercado literário em um próximo artigo. O que gostaria de dizer, de fato, foi que fiquei bastante surpresa e muitíssimo animada com a repercussão do evento. Olhei aquela sala cheia de mulheres e o que enxerguei foram as futuras escritoras que lerei, as futuras responsáveis por criar espaço para a presença feminina, seja em grandes editoras ou em editoras independentes. Por exemplo, a Editora Kayá, da Laura Folgueira, é – como ela mesma afirma – uma microeditora independente, cuja missão é publicar mulheres e já colocou à nossa disposição o livro Em Carne Viva, da autora Martha Lopes. E, durante o evento, surgiram muitas ideias de como abrir espaço para as mulheres na literatura: ebooks, campanhas de crowdfundings e mesmo a criação de um coletivo feminino com o intuito de ajudar as mulheres que queiram publicar suas obras, sejam livros, cordéis ou zines. Vejo com muitos bons olhos essa articulação e espero de coração que o movimento ganhe força, que esse conceito de “literatura feminina” caia por terra e que ter muitas mulheres em nossas estantes não seja motivo de comemoração, mas apenas o estado normal das coisas.

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