Levando a sério

“Eu escrevo porque é o meu trabalho. Foi assim que uma das escritoras que mais admiro atualmente me fez acordar para a vida, parar de levar tudo como uma mera brincadeira de criança que pode ser iniciada e encerrada a qualquer momento e me debruçar sobre o ofício com a seriedade que lhe é de direito.

 

Posso falar sem grandes exageros que escrevo desde o momento em que aprendi a ler. A leitura, aliás, sempre teve algo de sagrado para mim. Recordo até hoje do momento sublime em que me enxerguei enquanto leitora: as letras formando sílabas, as sílabas criando palavras e eu olhando extasiada para minha professora: Tia Cidinha, acho que eu li! Escrever foi consequência natural, necessidade de pôr no papel o que a imaginação ditava. Boa parte dos escritos foi parar em sacos de lixo. Outra parte foi transformada em fanfics no falecido Orkut. Até o Concurso Brasil em Prosa, produzido recentemente pela Amazon, eu nunca havia submetido um conto sequer, embora tenha mantido alguns blogs (já desativados) e participe como colunista dos queridos Leitor Cabuloso e Indievisível. O principal motivo para nunca ter desejado escrever mais (sempre escrevi menos do que eu queria, menos do que o necessário, menos do que deveria ser o meu pão diário) era a falta de confiança no meu trabalho. Para ser sincera, ainda não confio. Confesso: me acho uma fraude. Sempre que me vejo ou me defino como escritora, aquela vozinha malévola no fundo da minha cabeça (alguns de vocês devem conhecer uma semelhante) diz que é muita petulância minha pretender esse título.

Meses atrás, em uma conversa com meu namorado, discutíamos sobre nossos amigos próximos e o quanto eles entendem muito de suas respectivas áreas. São desenhistas incríveis, programadores exímios, músicos extraordinários, jornalistas geniais, pessoas que não apenas entendem do que fazem como estão sempre a par das novidades e tendências. Fiquei me perguntando no que eu era “especialista”. Eu sou Social Media, e entendo um bocadinho de Analytics e Ads, análise de relatórios… No fundo, não poderia me considerar uma especialista em nada disso, embora sejam coisas que eu goste de fazer (e com as quais trabalho diariamente). Até então ler – e tudo que eu sabia sobre livros e literatura – não passava de hobby, não entrava na lista de “coisas que eu entendia”. Eram tão orgânicas quanto respirar e, portanto, eu não percebia que fazia.

Então, certo dia, decidi abrir minha conta mofada do twitter. Na aba ao lado, alguns artigos e podcasts do Leitor Cabuloso. Dei início a um processo de seguir pessoas que escreviam aqueles artigos, apareciam nos podcasts ou simplesmente eram seguidas por amigos cujo bom gosto eu reconhecia. Não sei dizer o que me motivou a fazer isso, mas eu fiz. Em pouco tempo estava embevecida com as leituras do Momentum Saga, do Think Olga, da Aline Valek. Estava conhecendo podcasts como AntiCast e escritores como o Enéias Tavares. Estava acompanhando a timeline de pessoas tão inspiradoras, tão honestas em seus ofícios, que algumas coisas começaram a ficar claras pra mim. Não que eu era uma ótima escritora ou, pelo menos, uma escritora mediana. Mas que eu era uma pessoa que escrevia e encontrava nisso um prazer inenarrável. E estava desperdiçando a mim mesma e à minha arte esperando pelo grande momento em que me sentiria a melhor escritora do mundo (mesmo com tão pouco produzido para o tal do mundo ler e avaliar).

Não pretendo fazer desse blog algo muito pretensioso. Será, antes de tudo, um lugar para discutir literatura sob o meu ponto de vista (que é o único sobre o qual posso opinar, no fim das contas). Talvez a parte mais pretensiosa desse projeto seja tentar tirar o rótulo elitista e academicista que paira sobre a literatura e os ditos críticos. Literatura é só mais uma forma de arte e – penso eu – a arte não cumpre seu principal papel no mundo se não puder ser compreendida por muitas pessoas, pelo maior número possível de pessoas. Isto posto, esse blog é, antes de tudo, um espaço de discussão. Um aviso! Ele levantará sim bandeiras. Então se você não suporta pessoas que batem na tecla em favor do afrotransfeminismo e contra o racismo,a homofobia, a xenofobia ou qualquer outra forma escrota de opressão, faça um favor a nós dois e dê o fora!

E para você que ficou até o final, deixo o meu muito obrigada! Puxe a almofada de que mais gostar, segure na minha mão e vamos caminhar juntos por esse espaço de descobertas. Por uma literatura para todos!

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